Crescimento do Empreendedorismo entre Jovens no Brasil
O empreendedorismo entre os jovens brasileiros está se consolidando como uma força significativa na economia nacional. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) revelam que, de 2012 a 2024, o número de jovens empreendedores aumentou em 25%, passando de 3,9 milhões para 4,9 milhões. Não à toa, essa faixa etária já representa 16% dos empreendedores no país.
A expansão do empreendedorismo juvenil está concentrada principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste, onde 67,8% dos jovens empreendedores estão localizados, com 43,5% no Sudeste e 24,3% no Nordeste. Os setores de Serviços e Comércio são os mais representativos, com 56,9% das iniciativas pertencendo à área de Serviços. A Indústria, por outro lado, registra a menor participação, com apenas 5,3%, e a Construção apresenta uma queda significativa.
Mudanças no Perfil dos Jovens Empreendedores
Além do aumento no número de empreendedores, observa-se também uma transformação no perfil das empresas fundadas por jovens. Após um período de alta rotatividade até 2020, os dados apontam que, a partir de 2021, há uma maior presença de negócios consolidados. Em 2024, 60,7% dos jovens que abriram suas empresas já contavam com um histórico de pelo menos dois anos de atividade, um indicativo de que essas iniciativas estão se tornando mais sustentáveis.
O economista Otto Nogami, professor do Insper, comenta sobre essa evolução: “O empreendedorismo jovem deixou de ser uma realidade marginal e se tornou um elemento crucial na dinâmica do mercado de trabalho brasileiro.” No entanto, ele alerta que a transformação ainda não está completa. “Observamos uma mudança estrutural no mercado, que agora incorpora ocupações mais flexíveis, além de um aumento na informalidade e na valorização de trajetórias não lineares,” explica.
Desafios e Oportunidades para Jovens Empreendedores
O Global Entrepreneurship Monitor (Gem 2024) aponta que a motivação para empreender entre os jovens é diversificada, variando de oportunidades a necessidades. Aproximadamente 45% dos empreendedores iniciantes afirmaram ter começado seus negócios devido à falta de alternativas de emprego. Outros, por sua vez, buscam gerar renda, acumular riqueza ou ter um impacto social. “Não se trata apenas de uma saída defensiva; é uma mescla de aspirações, autonomia e a busca por renda em um cenário de dificuldades,” destaca Nogami.
Em 2024, 18,5% dos jovens entre 15 e 29 anos estavam fora do mercado de trabalho, sem estudar ou se capacitar. “Para muitos, empreender é um projeto de vida; para outros, é a única saída possível diante de limitações concretas,” completa o especialista.
Renda e Obstáculos no Empreendedorismo Juvenil
Apesar do avanço no número de jovens empreendedores, a renda média ainda representa um grande desafio. No quarto trimestre de 2024, a renda média entre os jovens empreendedores ficou em R$ 2.567, o valor mais alto já registrado, porém 26,2% inferior à média geral dos donos de negócio. Essa discrepância é ainda mais pronunciada ao comparar com os rendimentos de adultos e seniores, configurando o que Nogami define como um “abismo de rendimento.”
Os principais obstáculos identificados incluem a baixa formalização dos negócios — apenas 27,2% possuem CNPJ —, a falta de contribuição previdenciária (70,3% dos jovens não contribuem) e a baixa escala das empresas, com apenas 7,4% atuando como empregadores. A burocracia, a complexidade do sistema tributário, dificuldades de acesso ao crédito e o medo do fracasso também são barreiras relevantes.
Inovações e Novos Projetos
Recentemente, surgem iniciativas com foco em inovação, como a Algarys, fundada em 2025 por Felipe e Pedro Grisi, em Brasília. Com soluções em inteligência artificial, a empresa defende que a tecnologia deve aprimorar a experiência humana no trabalho, diferentemente do que se costuma ouvir no mercado. Felipe compartilha que seu desejo de empreender nasceu na juventude, desafiando o modelo tradicional de carreira. “Sempre ouvimos que deveríamos seguir o caminho padrão, mas a vontade de empreender falou mais alto,” relata.
A Algarys iniciou suas atividades no comércio digital, onde Felipe ganhou experiência e alcançou a independência financeira. Hoje, eles desenvolvem soluções tecnológicas que facilitam a triagem em unidades de saúde, utilizando inteligência artificial para oferecer recomendações aos médicos, com base nas informações coletadas.
Capacitação Como Chave para o Futuro
Os irmãos Grisi destacam que a maior dificuldade reside na educação dos usuários sobre as novas tecnologias. “É um desafio educar empresários e funcionários sobre o uso adequado da inteligência artificial. Há muita informação errada circulando, o que gera percepções distorcidas,” observam. Para eles, o futuro está na capacitação dos profissionais para que entendam o papel da tecnologia em seus negócios.
Outro exemplo é a Notp, uma marca criada por estudantes do ensino médio que atende centros acadêmicos com uniformes personalizados. Gabriel Fleury, um dos fundadores, fala sobre a importância do reinvestimento do faturamento para a expansão da empresa, que se estruturou de forma gradual, conciliando a gestão com os estudos.
A Busca por Liberdade Financeira
A autonomia é uma motivação central para muitos jovens empreendedores. Victor Janiszewski, sócio-fundador da Quartavia, afirma que sua busca vai além da estabilidade financeira. “Não quero chegar aos 50 anos trocando meu tempo por dinheiro; valorizar o tempo é essencial,” diz Janiszewski, que critica a orientação tradicional de carreira. Ele observa que, diante da crise de confiança nas estruturas tradicionais de emprego, o empreendedorismo se torna uma alternativa viável.
Embora o avanço do empreendedorismo juvenil seja promissor, especialistas preveem que a sustentabilidade será o maior desafio. Para 2024, quase metade dos não empreendedores manifestou interesse em abrir um negócio nos próximos três anos. Contudo, garantir a sobrevivência desses negócios será crucial, conforme conclui Nogami: “O crescimento sustentável dependerá da capacidade de transformar iniciativas frágeis em empresas duradouras e rentáveis.”
