Inovação e Sustentabilidade na Bioeconomia
No mês de abril, o governo federal lançou uma política pública inovadora: o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). Esta iniciativa visa fomentar as atividades desse setor, que começa a mostrar resultados promissores. Um exemplo notável é a startup Mahta, que desde 2021 desenvolve alimentos utilizando ingredientes da Amazônia, apostando em ‘superalimentos’ e tecnologias como a liofilização. A empresa tem impactado positivamente comunidades extrativistas e pequenos agricultores que cultivam em sistemas agroflorestais. Entre seus produtos, destacam-se o leite em pó vegetal de castanha, shakes de proteína com 12 ingredientes diversos, barras de proteína e um café que combina guaraná de Maués (AM) com cacau nativo. No total, essas linhas de superalimentos utilizam 33 ingredientes da floresta.
A popularidade dos produtos da Mahta cresceu, especialmente entre os praticantes de esportes. Seu e-commerce, que representa 90% das vendas, já conta com mais de 50 mil clientes, incluindo 3 mil assinantes ativos. A startup está ampliando sua presença em redes varejistas e projeta um faturamento de R$ 25 milhões até 2026.
Max Petrucci, fundador e CEO da Mahta, ressalta a importância de equilibrar impacto social e viabilidade econômica. “A maior parte dos negócios ligados à Amazônia enfrenta a dualidade de focar no impacto ou na lucratividade. Estamos conseguindo desenvolver ambas vertentes”, afirma. Após uma carreira no setor de tecnologia, Petrucci decidiu fundar a Mahta após uma experiência de exaustão crônica aos 38 anos. A empresa tem como diretriz não comprar de intermediários ou latifundiários, mas sim de cooperativas e associações que também trabalham para regenerar a floresta, contando atualmente com 42 fornecedores distribuídos em seis estados amazônicos.
Saúde e Tecnologia: O Caso da Ages Bioactive
A aposta em saúde e inovação também é protagonista na Ages Bioactive, uma startup que atua no campo dos nutracêuticos – produtos feitos a partir de compostos bioativos extraídos de alimentos, voltados para a medicina preventiva. Utilizando ingredientes da biodiversidade brasileira, como tucumã, buriti e camu-camu, além de erva-mate e própolis vermelha, a empresa se posiciona no emergente mercado de ‘healthspan’, que visa o envelhecimento saudável. Caio Agmont, CEO da Ages Bioactive, destaca que a empresa busca desenvolver produtos que solucionem grandes problemas sociais.
Os nutracêuticos da Ages Bioactive são comercializados em farmácias de manipulação mediante prescrição médica e têm eficácia em tratar dores crônicas, problemas metabólicos e questões hormonais relacionadas à menopausa. A base científica que sustenta o desenvolvimento dos produtos é um diferencial significativo.
Integrada ao Inova HC, hub de inovação do Hospital das Clínicas de São Paulo, a Ages Bioactive conta com o suporte do Laboratório de Pesquisa em Fármacos da Universidade Federal do Amapá (Ufam), onde 50 pesquisadores trabalham sob a coordenação do professor José Carlos Tavares, que é sócio e responsável técnico da empresa. Com previsão de faturar R$ 20 milhões em 2026, a Ages busca um crescimento de 40% ao ano, ampliando sua presença em farmácias magistrais e reforçando seu relacionamento com os 12 mil profissionais de saúde que prescrevem seus produtos.
Logística e Desafios na Amazônia
As complexidades logísticas da Amazônia, onde os rios funcionam como as principais vias de transporte, representam um dos maiores desafios para o escoamento da bioeconomia local. Para combater esses obstáculos, a Navegam Log, fundada em 2019, surgiu com a missão de digitalizar o transporte fluvial. Inicialmente, a proposta era se tornar um marketplace de passagens de barco, mas a startup percebeu oportunidades maiores no transporte de cargas.
“Começamos a operar na última milha fluvial e na gestão da logística. Evoluímos de uma operadora regional para uma multimodal que atende todo o país”, explica Michelle Guimarães, CEO da Navegam Log. O conceito multimodal abrange desde canoas amazônicas até transporte em caminhões.
A startup deve encerrar o ano com um faturamento de R$ 30 milhões, o que representa um crescimento de 70% em relação ao ano anterior. O sucesso da Navegam Log se deve ao entendimento das dinâmicas regionais e ao investimento em tecnologia para atender melhor seus clientes.
Desenvolvimento e Investimentos na Amazônia
As três startups mencionadas destacam-se por terem passado por processos de aceleração e rodadas de investimento. A Ages Bioactive recebeu aporte do Fundo de Floresta e Clima, da gestora KPTL, enquanto a Mahta e a Navegam Log integram o portfólio da Amaz, aceleradora de negócios de impacto que já investiu R$ 7 milhões diretamente em startups e mobilizou R$ 32 milhões de investidores.
Para Gabriela Santos, gestora de operações da Amaz, a sobrevivência dessas empresas no chamado “vale da morte” – uma fase crítica que exige capital adicional para a consolidação dos negócios – depende da adaptação de seus modelos de forma a garantir viabilidade econômica e previsibilidade de oferta. “O investimento, seja em crédito ou por meio de participação acionária, é a gasolina que impulsiona o desenvolvimento desses negócios, permitindo que acessem novos mercados e aprimorem sua eficiência operacional”, conclui Santos.
