Brasil e Senegal: Conexões que Fazem a Diferença
O governo brasileiro está empenhado em reduzir o tempo de voo entre o Brasil e Dacar, a capital do Senegal, localizada na costa oeste da África. Essa mudança traria benefícios significativos tanto para o comércio quanto para o turismo entre os dois países, bem como para as nações vizinhas.
Atualmente, a falta de voos diretos entre Brasil e Senegal é um entrave. Muitas vezes, viajantes são obrigados a fazer escalas em lugares como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegar a Dacar, o que prolonga consideravelmente o tempo de viagem. Outras opções incluem conexões em aeroportos europeus ou em cidades africanas mais distantes da América do Sul.
Em uma linha reta, Natal, no Rio Grande do Norte, está a apenas 2,9 mil quilômetros do Senegal. Para se ter uma ideia, a distância entre a capital potiguar e Lisboa é quase o dobro, enquanto que a rota até Dubai é quase quatro vezes mais longa.
A informação sobre a intenção do Brasil de encurtar a duração do voo para o Senegal foi revelada à Agência Brasil pela embaixadora brasileira no Senegal, Daniella Xavier, durante uma entrevista realizada no dia 21 de abril de 2026.
“É fundamental que continuemos a trabalhar nesse sentido. Não faz sentido termos que ir à Europa para percorrer menos de 3 mil km! Imagine a redução nos tempos de voo e nos custos, beneficiando não apenas o Brasil, mas também os demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, afirmou a embaixadora.
Desbloqueando Oportunidades
Daniella Xavier, que participou do Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, destacou a necessidade de romper um ciclo vicioso: “O comércio e o turismo não têm escala devido à falta de conexões; e as conexões não se estabelecem por falta de escala”.
A embaixadora se reuniu recentemente com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, e representantes da companhia aérea Air Senegal. Ela enfatizou a importância de estabelecer parcerias entre empresas brasileiras, que são majoritariamente privadas, e a companhia senegalesa, além de outras linhas aéreas de países africanos, como Marrocos, Etiópia e Turquia, para desenvolver acordos de codeshare — um sistema onde uma empresa pode vender passagens para os voos operados pela outra.
Laços Históricos e Comerciais
Durante a conversa, Daniella Xavier ressaltou a “excelente relação” entre o Brasil e o Senegal, que se reforça ao longo dos anos. Desde a independência do Senegal, em 1960, os dois países construíram laços profundos, especialmente devido à história do tráfico de pessoas escravizadas. A Ilha de Gorée, localizada no Senegal, é um marco histórico importante desse passado.
A embaixada brasileira foi inaugurada em Dacar em 1961, e, dois anos depois, o Senegal abriu sua representação diplomática em Brasília, sendo a única do país africano na América do Sul.
No que diz respeito ao comércio, os números são expressivos. Em 2025, as trocas comerciais entre Brasil e Senegal somaram US$ 386,1 milhões, com um saldo favorável de US$ 370,8 milhões para o Brasil, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. No entanto, a embaixadora mencionou que o Senegal ainda tem um potencial inexplorado para exportar produtos como amendoim, tecidos e artesanato ao Brasil.
Inovação e Investimentos
Um dos projetos que se destacam é a criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, anunciada em outubro de 2025. Com um investimento inicial de US$ 20 milhões, a iniciativa da empresa brasileira West Aves visa produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras, criando 300 empregos diretos e 1 mil indiretos, além de promover a transferência de tecnologia.
“Se o projeto for bem-sucedido, poderá garantir a autossuficiência do Senegal na produção de aves e reduzir os custos para os consumidores em até 20%”, comentou a embaixadora.
Além disso, outras discussões estão em andamento sobre a transferência de tecnologias nas áreas de agropecuária e programas de merenda escolar.
Fortalecendo Relações Internacionais
A representante brasileira finalizou destacando que a relação entre Brasil e Senegal está se tornando cada vez mais dinâmica. “Em um mundo com tantas incertezas, é essencial ampliar a coordenação política entre os países que compartilham visões semelhantes e encontrar alternativas comerciais”, afirmou.
Um exemplo dessa colaboração é a defesa conjunta por reformas em organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU. Atualmente, apenas cinco países têm assento permanente e direito a veto no conselho, e nenhum deles é da América do Sul ou da África.
Durante o mesmo fórum, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, destacou o compromisso do Senegal em fortalecer a cooperação na prevenção de conflitos e promoção da paz, ressaltando a longa tradição de contribuições do país para operações de paz, tanto da ONU quanto da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao).
