Reflexões sobre os Impactos da Covid-19
MANAUS – Passados sete anos desde o colapso sanitário que resultou na morte de 9.686 pessoas em Manaus, em março de 2020, profissionais de saúde e pesquisadores analisam os avanços e desafios enfrentados pelo Brasil. O pico da crise ocorreu em janeiro de 2021, quando a falta de oxigênio hospitalar levou os sistemas de saúde ao colapso. Embora tenham ocorrido melhorias em infraestrutura e vigilância epidemiológica, um desafio persistente permanece: a crescente tensão entre política e ciência nas decisões durante emergências de saúde pública.
De acordo com Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia, a eficácia do Sistema Único de Saúde (SUS) continua vulnerável devido à falta de integração entre os níveis municipal, estadual e federal. “A gestão do SUS depende de uma colaboração eficiente entre os três níveis de governo. Se um deles falha, as consequências são sentidas em toda a rede e, consequentemente, pela população”, explica.
Orellana também observa avanços significativos, destacando que, nos últimos três anos, houve melhorias na vigilância integrada de doenças e indicadores de saúde, apesar da nova crise climática. Entretanto, ele ressalta que ainda é necessário aprimorar ações mais integradas, mesmo após a dolorosa experiência da pandemia de Covid-19 no Brasil.
A Aposta na Imunidade de Rebanho
Bernardino Albuquerque, infectologista aposentado da Ufam e ex-diretor da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), é claro: a pandemia poderia ter tido um desfecho diferente. “Desde os primeiros relatos em Wuhan, a ciência já alertava sobre a alta transmissibilidade e gravidade da doença. Nossos governantes, no entanto, permitiram que decisões cruciais fossem tomadas com base em questões políticas e econômicas”, critica.
A escolha pela imunidade de rebanho, baseada na contaminação natural, é vista por Orellana como um erro de cálculo político. “O governo Bolsonaro e o então governador Wilson Lima adotaram essa teoria fantasiosa, visando popularidade imediata em detrimento da saúde pública. O resultado foi uma tragédia que custou a vida de mais de 700 mil brasileiros”, enfatiza.
Josiani Nunes, epidemiologista que atuou como coordenadora do Comitê de Enfrentamento da Covid-19 em Manaus, explica que a teoria da imunidade de rebanho funcionou como um escudo para a inação governamental. Ela argumenta que medidas concretas, como lockdown e aquisição de vacinas, eram vistas como politicamente impopulares e custosas, levando os gestores a transferir a responsabilidade para o vírus.
O Efeito da Comunicação e a Necessidade de Ações Rápidas
Daniel Barros de Castro, doutor em Epidemiologia, acredita que houve uma distorção do conceito de imunidade de rebanho em um momento repleto de incertezas sobre a Covid-19. “O foco deveria ter sido em identificar medidas de controle eficazes, e não em justificar a inação”, pondera.
Orellana destaca que estratégias simples, como a detecção precoce de casos e uso de máscaras, foram negligenciadas, resultando em um desastre sanitário, especialmente em Manaus, que se tornou um verdadeiro laboratório das falhas de gestão. “Deixaram o vírus se espalhar sem controle, culminando em colapsos funerários e hospitalares”, lamenta.
Em sua análise, Nunes ressalta a falácia da dicotomia entre salvar vidas e salvar a economia, apontando que o colapso da saúde inevitavelmente leva ao travamento da economia devido ao medo e à luto.
A Importância da Ciência na Gestão Pública
Albuquerque acredita que a confiança na ciência e no planejamento estratégico são cruciais. “Devemos conduzir a saúde pública como um problema técnico, e não político. Isso garantirá um melhor resultado na proteção da população”, afirma.
Desde março de 2020, o impacto da Covid-19 em Manaus foi devastador. O maior pico de mortes e a dificuldade em atender a demanda hospitalar se tornaram um alerta mundial sobre a fragilidade do sistema de saúde da região.
As imagens da tragédia, com centenas de covas no cemitério, simbolizam a necessidade de aprendizado e mudança na abordagem da saúde pública. Jesem Orellana alerta: “Não podemos trocar a ciência por teorias infundadas, as consequências são desastrosas.” O fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) é visto como uma questão urgente para evitar novos colapsos sanitários.
Conclusão
O legado da pandemia em Manaus deve ser uma lição permanente para a gestão da saúde no Brasil. A integração entre os níveis de governo, a valorização da ciência e a ação rápida e eficaz podem transformar a experiência dolorosa da Covid-19 em um catalisador para melhorias na saúde pública.
