Um Novo Capítulo nos Negócios Trump
Donald Trump, durante um evento em fevereiro de 2024, foi visto usando um par de tênis da marca Trump — Foto: AP Photo/Manuel Balce Ceneta.
Historicamente, presidentes dos Estados Unidos têm tomado precauções para evitar a impressão de que lucram com o cargo. Harry Truman, por exemplo, assegurou que seu nome não fosse associado a negócios após deixar a presidência. Richard Nixon, preocupado com a influência de sua família, chegou a instalar escutas em seu telefone para evitar qualquer impropriedade. George W. Bush, ao tomar posse, vendeu todas as suas ações para garantir uma clara separação entre seus interesses pessoais e suas responsabilidades públicas.
No entanto, o atual presidente, Donald Trump, adotou uma abordagem distinta. A empresa imobiliária da família, a Trump Organization, está expandindo sua atuação global em um ritmo sem precedentes, levantando questões sobre como esses novos acordos podem influenciar suas decisões políticas, desde tarifas comerciais até ajuda militar. Sob a direção dos filhos, Eric e Donald Jr., os negócios da Trump Organization começaram a incluir investimentos em criptomoedas, gerando bilhões, mas também suscitando preocupações sobre possíveis favores a grandes investidores.
Eric e Donald Jr. estão se envolvendo com várias empresas que visam contratos com o governo federal, e recentemente conquistaram uma participação significativa em uma fabricante de drones armados que busca vender seus produtos ao Pentágono e a nações do Golfo, que dependem do apoio militar americano.
A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer violação ética, com Donald Jr. se referindo a perguntas sobre conflitos de interesse como cansativas. No entanto, especialistas em ética e historiadores apontam que os desafios éticos enfrentados por Trump se tornaram mais complexos durante seu segundo mandato, com conflitos acumulados e sem precedentes. “A linha entre decisões políticas e interesses pessoais da família Trump é, atualmente, nebulosa”, afirma Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.
Explosão de Negócios Internacionais
Durante seu primeiro mandato, a Trump Organization não firmou acordos fora dos Estados Unidos. Entretanto, após pouco mais de um ano de seu segundo mandato, já são oito novos negócios internacionais. A empresa assegura que todos os acordos estão de acordo com suas próprias regras de não negociar diretamente com governos estrangeiros. Porém, em países com governos fortes, como Catar e Vietnã, a influência do poder político é difícil de ignorar. Por exemplo, um clube de golfe e unidades residenciais com a marca Trump estão sendo construídos no Catar com a ajuda de uma empresa estatal.
No Vietnã, houve relatos de que agricultores foram deslocados de suas terras para dar espaço a um resort Trump, cuja aprovação ocorreu em uma cerimônia oficial que contou com a presença do vice-primeiro-ministro. Além disso, na Arábia Saudita, um resort chamado ‘Trump Plaza’ está sendo desenvolvido por uma entidade próxima à família real. Embora não se possa afirmar categoricamente que esses negócios influenciaram decisões do governo americano, o resultado para os países envolvidos é claro: o Catar ganhou acesso a tecnologia militar dos EUA, o Vietnã obteve reduções fiscais, e a Arábia Saudita recebeu aviões de combate.
A Trump Organization se beneficiou desses acordos, arrecadando milhões em taxas. Em resposta a questionamentos sobre esses projetos, a empresa reiterou que não realiza transações com governos, afirmando que a empresa saudita é de natureza privada e que sua colaboração com o Catar não caracteriza uma parceria que violaria suas regras.
Controvérsias em Criptomoedas e Negócios Estranhos
Outras transações envolvendo criptomoedas levantam mais dúvidas. Em um relatório do Wall Street Journal, ficou evidenciado que, pouco antes de Trump assumir a presidência, a família vendeu uma significativa participação na empresa de criptomoedas World Liberty Financial a um consórcio ligado ao governo dos Emirados Árabes Unidos por US$ 500 milhões. Este investimento possibilitou à empresa de Trump realizar aplicações em ativos seguros, gerando lucros substanciais.
Além disso, após o governo Trump revogar uma norma que restringia as vendas de chips avançados para os Emirados, o fundador da Binance, uma plataforma de criptomoedas, recebeu um perdão de Trump, mesmo depois de ser condenado por não impedir o uso da plataforma por criminosos.
De acordo com a World Liberty, não há conflitos de interesse nas transações com os Emirados Árabes, e a empresa negou qualquer relação entre os negócios e as decisões governamentais. A venda de tokens de governança também trouxe receitas significativas, arrecadando US$ 2 bilhões em um ano, com boa parte desses investimentos provenientes de bilionários do setor de criptomoedas.
O crescente império empresarial da família Trump
Os negócios da família Trump não estão isentos de riscos, especialmente em um mercado volátil como o de criptomoedas. Desde o início deste ano, o valor do bitcoin e de outras criptomoedas caiu drasticamente, afetando negativamente os investimentos da família. Apesar disso, Donald Jr. continua a promover novos empreendimentos, como um clube privado em Washington, DC, que cobra até US$ 500 mil para a adesão, oferecendo acesso a um ambiente próximo do poder.
A Trump Organization não apenas anunciou novos acordos com a Arábia Saudita, mas também busca expandir sua atuação no setor de drones e em outras áreas que podem receber investimento público. A empresa, que está sob a administração dos filhos de Trump, enfrenta críticas sobre potenciais conflitos de interesse, mas os representantes da família afirmam que estão agindo dentro da lei e que qualquer sugestão em contrário é infundada.
No entanto, a percepção pública parece estar mudando. Uma pesquisa recente do Pew Research Center revelou que a confiança dos eleitores republicanos em Trump como um líder ético diminuiu, levantando questões sobre a continuidade de seu modelo de negócios baseado em políticas governamentais e interesses privados.
