Os Avanços da Economia Circular no Brasil
A economia circular no Brasil começou a evoluir de um conceito teórico para um elemento essencial na formulação das políticas públicas. Essa mudança demanda uma transformação significativa, que depende tanto das ações das empresas quanto da conscientização dos consumidores. Entretanto, especialistas ressaltam que a participação do Estado é crucial nesse processo. A falta de regras claras e de incentivos públicos tem sido um fator limitante para acelerar essa transição.
Nos últimos dois anos, o governo federal tem se esforçado para criar uma governança nacional que implemente os princípios da economia circular no país. Foram definidas metas de reciclagem e iniciativas que promovem o reaproveitamento de materiais, a remanufatura e a ampliação da vida útil de produtos. Essas ações se inserem na atual política de estímulo à competitividade do setor produtivo, formalizada no plano Nova Indústria Brasil (NIB).
Contudo, o caminho para uma economia circular eficiente ainda se apresenta como um quebra-cabeça complexo. Embora haja otimismo em relação às novas diretrizes, a realidade das fábricas revela a ausência de incentivos fiscais adequados. Além disso, o financiamento a longo prazo e a aprovação de um marco legal que transforme essa intenção em uma política de Estado sólida ainda são demandas urgentes.
Estratégias e Objetivos
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A criação da Estratégia Nacional de Economia Circular (Enec), em 2024, foi um marco importante. O decreto assinado pelo presidente Lula estabeleceu a primeira definição oficial do conceito no Brasil e orientou o desenvolvimento do Plano Nacional de Economia Circular (Planec).
O Planec, apresentado em 2025, estipulou metas ambiciosas para 2030, que incluem a redução em 20% da geração de resíduos urbanos não recicláveis e um aumento significativo no uso de materiais recuperados pela indústria. Ao mesmo tempo, a Política Nacional de Economia Circular (Pnec), que já passou pela aprovação da Câmara, aguarda a validação do Senado.
Enquanto o marco regulatório não é ratificado, o governo tem promovido ações por meio de decretos, como a exigência de que embalagens plásticas contenham 22% de material reciclado.
Desafios na Implementação
A partir da Enec, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) tem integrado a economia circular ao NIB. A secretária de Economia Verde do Mdic, Julia Cruz, enfatiza que a sustentabilidade é vista como um motor da competitividade. “Quando falamos em redução da extração de recursos e de resíduos, também estamos tornando o processo produtivo mais eficiente, o que pode reduzir custos. Isso demanda inovação, tornando a indústria mais competitiva e ampliando mercados que valorizam a sustentabilidade”, afirmou.
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Entretanto, a implementação prática dessas diretrizes enfrenta desafios financeiros. Setores industriais relatam que a transição para uma economia circular exige um redesenho completo dos produtos, mas a falta de incentivos financeiros dificulta o progresso. Segundo Julia Cruz, no último ano, foram mobilizados mais de R$ 1 bilhão por atores governamentais envolvidos na Enec, incluindo R$ 670 milhões em linhas de crédito e R$ 300 milhões em investimentos públicos.
Recentes Avanços e Inclusão Social
Um recente avanço foi a sanção da lei que resolve um impasse tributário relacionado ao PIS/Cofins, que promovia a bitributação sobre materiais recicláveis. O secretário de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Adalberto Maluf, destacou que essa medida garante que o crédito tributário seja aproveitado por toda a indústria, corrigindo uma decisão judicial que prejudicava o setor.
O BNDES também tem contribuído, oferecendo linhas de crédito e já financiou R$ 470 milhões para usinas de biometano, além de R$ 221 milhões para a conversão de rejeitos minerais em matéria-prima. O banco apoia ainda a política federal de logística reversa com recursos não reembolsáveis direcionados a redes de catadores.
Perspectivas Futuras e Necessidade de Estabilidade
A receita bruta das cooperativas de catadores cresceu de R$ 1,3 bilhão para R$ 2 bilhões entre 2023 e 2024. O índice oficial de reciclagem também aumentou de 3,5% para 9,2%, com uma meta do MMA de atingir 12% até o final deste ano. Apesar desse progresso, ainda é insuficiente diante da quantidade de resíduos gerados anualmente no país.
Especialistas em economia circular apontam que o governo tem feito avanços, mas as dificuldades permanecem na superação das metas de reciclagem e na promoção de mudanças produtivas que minimizem a geração de resíduos. A falta de uma Política Nacional de Economia Circular torna difícil estabelecer medidas práticas que acelerem a transformação das cadeias produtivas, que se tornam dependentes dos interesses do governo vigente.
Pedro Prata, da Fundação Ellen MacArthur, enfatiza a urgência de uma lei que estabeleça mecanismos para corrigir o preço de matérias-primas como o plástico, defendendo que o Brasil deva seguir exemplos de países como a França, que responsabiliza os fabricantes pelo ciclo de vida dos produtos.
“Transformar a política bem delineada em mudanças concretas para as empresas é o desafio atual. Sem isso, a lógica linear de produção e consumo pode persistir”, conclui.
