A Vitória de Flávio Bolsonaro em Manaus e o Cenário Estadual
Manaus confirmou pela terceira eleição presidencial consecutiva sua preferência pelo candidato da família Bolsonaro. Após Jair Bolsonaro (PL) vencer na capital amazonense nos segundos turnos de 2018 e 2022, com 65,72% e 61,28% dos votos válidos respectivamente, seu filho Flávio Bolsonaro (PL) repetiu o feito em 2026, conquistando 55,83% dos votos na cidade. Entretanto, essa vitória não se traduziu no resultado estadual.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) superou Flávio no Amazonas, obtendo 1.145.783 votos, equivalentes a 54,02% dos votos válidos, contra 975.245 votos (45,98%) do adversário. A diferença foi de 170.538 votos favoráveis ao petista, que venceu em 57 dos 62 municípios do estado. Flávio Bolsonaro prevaleceu em Manaus e em apenas mais quatro cidades do interior.
Redução do Apoio a Bolsonaro em Manaus
Uma análise dos dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e interpretações de especialistas e lideranças políticas locais indicam uma transformação em curso na dinâmica eleitoral da capital. Embora a vitória da extrema-direita tenha se repetido em Manaus, a hegemonia bolsonarista apresenta sinais claros de desgaste e limitações estruturais.
Os números históricos confirmam a queda do apoio à direita na capital: em 2018, Jair Bolsonaro venceu com 65,72% dos votos; em 2022, o percentual caiu para 61,28%; e em 2026, Flávio Bolsonaro alcançou 55,83%, evidenciando uma redução acumulada de quase 10 pontos percentuais em oito anos.
Adicionalmente, entre o primeiro e o segundo turno de 2026, Lula ampliou sua votação em Manaus em 81.391 votos, enquanto Flávio Bolsonaro ganhou apenas 16.028 votos a mais. Esse dado reforça a percepção de que o bolsonarismo atingiu um teto na capital.
Leia também: Lula e Flávio Bolsonaro Dominam 71% dos Votos no Amazonas e Eliminam Terceira Via
Leia também: Amazonas e Brasil decidem futuro político em eleição crucial
Fonte: daquidemanaus.com.br
A Influência do Interior e o Teto Conservador
No âmbito estadual, a vitória de Lula foi sustentada pela expressiva votação no interior, com destaque para municípios como Barreirinha, onde o petista alcançou 90% dos votos. Por outro lado, Flávio Bolsonaro foi o mais votado em Manaus e em apenas quatro cidades do interior: Apuí, Guajará, Boca do Acre e Humaitá.
O diretor-presidente da Action Pesquisas, Afrânio Soares, destaca que o bolsonarismo em Manaus parece ter alcançado um limite, mantido por uma base conservadora e evangélica consolidada. No entanto, ele observa a dificuldade do movimento em expandir sua influência para além desse grupo, o que pode levar a uma retração nas próximas eleições.
Contexto Social e Difusão Ideológica na Capital
O cientista social Luiz Antônio Souza, da Ufam, explica que o apoio persistente ao bolsonarismo, mesmo diante de fatos negativos como a pandemia e ataques à Zona Franca de Manaus (ZFM), está ligado a uma ampla difusão ideológica promovida por elites locais. Essa influência se manifesta especialmente em programas de rádio e igrejas neopentecostais, que somam cerca de 7.000 templos para apenas 100 escolas, segundo dados do IBGE.
Essa desproporção contribui para a formação de uma juventude periférica polarizada, que enxerga a esquerda como inimiga, o que dificulta o debate racional sobre questões econômicas e sociais relevantes para a região.
Uma Cidade Dividida e em Transformação
O ex-deputado federal Marcelo Ramos questiona a ideia de que Manaus seja um reduto absoluto da extrema-direita. Ele destaca que o campo progressista e democrático conseguiu se organizar nas últimas eleições, reduzindo a diferença de votos para o bolsonarismo.
Leia também: Caso Jaques Wagner Envelhece Pesquisa Datafolha e Impacta Disputa Presidencial 2026
Fonte: bh24.com.br
Leia também: Quando a fé vira instrumento político e a democracia paga a conta
Fonte: gpsbrasilia.com.br
Segundo Ramos, Manaus é uma cidade plural, onde o bolsonarismo tem espaço, mas não domina. Essa divisão indica maior mobilização do campo popular e democrático, o que pode refletir futuras mudanças no cenário político local.
Desafios e Caminhos para as Forças Progressistas
Especialistas e lideranças sugerem que partidos progressistas, governo federal e movimentos sociais intensifiquem ações para fortalecer o diálogo político e ampliar a base de apoio. Luiz Antônio Souza critica a falta de articulação política interna do PT local, que dificulta a politização de investimentos federais, como as moradias construídas na região.
O cientista social ressalta a necessidade de as forças democráticas se apropriarem profissionalmente das redes sociais para enfrentar a hegemonia da direita no ambiente digital. Marcelo Ramos sugere ainda a manutenção da mobilização social para pautar debates públicos e apoiar reformas federais em Manaus.
Essas iniciativas podem ser decisivas para alterar o equilíbrio político na capital amazonense, que demonstra sinais claros de transição e disputa por espaço entre as forças conservadoras e progressistas.
