Relato de um sobrevivente
MANAUS (AM) – “As ondas estavam muito fortes e a água começou a entrar“. Esse é o depoimento impactante de José Antônio Sena da Silva, professor e sobrevivente do naufrágio da lancha Lima de Abreu XV, incidente que vitimou duas pessoas e deixou sete desaparecidas na última sexta-feira, 13, na famosa região do Encontro das Águas, em Manaus. O educador, que conseguiu resgatar uma criança durante a tragédia, criticou a falta de orientação em situações de emergência.
Em declarações à imprensa, ao deixar o Porto da Ceasa, um dos principais terminais fluviais da metrópole amazonense, José explicou que as fortes correntezas fizeram com que a água invadisse a embarcação pela proa. O piloto da lancha, Pedro José da Silva Gomes, foi acusado de navegar em alta velocidade pelo centro do rio. O professor revelou que, apesar dos alertas para que a velocidade fosse reduzida, os pedidos foram ignorados.
Além disso, José relatou que, ao perceber a entrada de água na lancha, a tripulação instruiu os passageiros a se moverem para a parte traseira da embarcação, na tentativa de equilibrar o peso. Embora ele não soubesse dizer se havia excesso de passageiros a bordo, afirmou com certeza que todos os assentos estavam ocupados.
“Estávamos navegando e as ondas eram muito fortes, a água começou a entrar porque a lancha estava em alta velocidade. A situação era alarmante e colocava todos em risco. O ideal seria navegar mais próximo da beira do rio, onde as ondas são menos intensas,” comentou.
Em um momento angustiante, José detalhou que os passageiros conseguiram sair da lancha pela lateral e pela parte traseira. Cerca de meia hora após o naufrágio, o barco identificado como São Bartolomeu chegou para prestar socorro. Ele também lamentou a falta de instrução da tripulação, enfatizando que em situações críticas, as pessoas ficam sem saber como agir ou para onde ir.
“O pior é que não havia nenhuma orientação que pudesse nos ajudar a tomar decisões correctas em meio ao desespero. As pessoas saíam pelas janelas e outras pela parte de trás, pois pela frente era impossível, já que a água estava entrando,” relatou José em seu depoimento.
Revolta e pedidos de Justiça
Romualdo Filho, pai de um recém-nascido prematuro resgatado em um cooler, também compartilhou sua indignação após assistir à apresentação do piloto no 1° Distrito Integrado de Polícia (DIP). Durante a saída do local, Romualdo expressou seu descontentamento com a situação, ressaltando a perda de seu pai, que se chama Romualdo, e que desapareceu após o naufrágio.
Abalado, ele fez um apelo por justiça, questionando o valor de vidas perdidas e os traumas que isso pode causar. “Quanto vale duas ou três vidas? E o impacto psicológico que isso traz para todos? Precisamos garantir que isso não aconteça novamente,” desabafou.
Piloto detido
O piloto da embarcação, Pedro José da Silva Gomes, foi preso em flagrante sob a acusação de homicídio culposo, mas foi liberado após o pagamento de fiança, conforme informou a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM). As investigações sobre o caso continuam em andamento, sem previsão de conclusão.
Vítimas do naufrágio
Duas vítimas fatais foram identificadas: a criança de três anos Samila de Souza Oliveira e a estudante de Odontologia Lara Bianca Bezerra Lopes. Além disso, sete pessoas permanecem desaparecidas, enquanto 71 ocupantes da lancha foram resgatados, segundo informações do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). Até a tarde deste sábado, 14, não havia atualizações sobre o paradeiro das vítimas que continuam desaparecidas.
