Fragmentação da Ordem Global e Seus Efeitos na Energia
O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, fez um alerta sobre a intensificação das divisões globais em torno da política energética. Ele destacou que a ‘fragmentação da ordem global’ está ampliando as divergências em relação às estratégias energéticas mundiais, especialmente com o recuo dos Estados Unidos em seus compromissos climáticos durante a presidência de Donald Trump.
Em uma recente entrevista, Birol enfatizou que as diferenças entre os países estão se tornando mais evidentes. Enquanto os EUA retrocedem em suas promessas climáticas, nações como a China e países europeus estão avançando em suas iniciativas de eletrificação. ‘Estamos testemunhando uma fragmentação da ordem política global, que se reflete diretamente no setor energético’, afirmou Birol. Ele complementou que diferentes países estão se orientando por caminhos distintos em questões relacionadas à energia e às mudanças climáticas.
Ações Contraditórias e Seus Impactos
No início de fevereiro, Trump revogou uma medida crucial que fortalecia a capacidade da Agência de Proteção Ambiental dos EUA em regular emissões. Além disso, durante seu mandato, o ex-presidente retirou os EUA do Acordo de Paris e também da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Essas ações têm gerado preocupações sobre o impacto dos EUA no cenário energético global.
Enquanto isso, países europeus também têm suavizado suas metas climáticas. No ano passado, a União Europeia revisou sua meta de redução de emissões para 2040 e flexibilizou os planos para eliminar motores a combustão até 2035. No Canadá, as emissões do setor de energia aumentaram, mesmo com o primeiro-ministro Mark Carney reforçando o apoio à indústria de petróleo e gás, em meio às ameaças comerciais de Trump.
Projeções da AIE e Novas Afiliações
Em novembro, a AIE divulgou projeções indicando que a demanda por petróleo e gás deve continuar crescendo nos próximos 25 anos, com base nas políticas atuais dos governos. Quando questionado sobre a influência dos EUA nas projeções, Birol assegurou que a AIE responde às solicitações ‘que nossos governos nos pedem para fazer’.
Apesar do ceticismo de Washington em relação a organismos multilaterais, Birol revelou que novos países estão buscando adesão à AIE. Uma fonte próxima à agência comentou que a Colômbia deve se tornar membro pleno, enquanto a Índia está em processo semelhante; o Brasil também se prepara para iniciar sua adesão, e o Vietnã se tornará um membro associado.
Abordagem Pragmática frente à Mudança Climática
Sophie Hermans, ministra de Energia da Holanda e presidente da reunião deste ano da AIE, reforçou a necessidade de uma abordagem ‘realista e pragmática’ no combate à mudança climática. Ao ser questionada sobre o debate na União Europeia sobre a manutenção do plano de eliminar gradualmente as permissões de emissão de CO2 para indústrias de alta intensidade energética, ela destacou que as empresas precisam ‘ter clareza sobre a direção’, mas também pediu flexibilidade para ajustar as políticas em um cenário geopolítico instável.
A Diversificação das Cadeias de Suprimento
Um dos focos da AIE na busca por consenso é a diversificação das fontes de matérias-primas críticas essenciais para a transição energética. Durante as discussões, os membros vão abordar como fortalecer as cadeias de abastecimento e a coleta de dados. Tanto Birol quanto Hermans alertaram sobre a importância de reduzir a dependência da China em relação a esses recursos. ‘Atualmente, observamos que um único país exerce um papel desproporcional na produção de minerais críticos. É vital trabalhar com diversas nações que compartilham valores semelhantes para garantir a diversificação’, concluiu Birol.
