Roberto Cidade e a Possibilidade de um Governo Tampão
MANAUS (AM) – O governador interino do Amazonas, Roberto Cidade (União Brasil), está determinado a se firmar como o ‘governador tampão’ do Estado. Essa estratégia surge a partir de uma recente manobra política na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), que garantiu a Cidade a presidência da Casa por três biênios consecutivos.
A chance de Cidade assumir o comando definitivo do Executivo estadual se abriu após as renúncias simultâneas do governador Wilson Lima (União Brasil) e do vice-governador Tadeu de Souza (PP), ocorridas no dia 4 de abril.
Com essa mudança, a linha sucessória estipula que o presidente da Aleam deve assumir interinamente o governo, por meio de uma eleição indireta entre os deputados estaduais.
Mandatos e as Polêmicas Judiciais
Roberto Cidade tem ocupado a presidência da Aleam desde 2021, sendo eleito para os biênios 2021-2022, 2023-2024 e 2025-2026. A Constituição Federal, em seu artigo 57, parágrafo 4º, proíbe a recondução sucessiva ao mesmo cargo da Mesa Diretora na mesma legislatura, permitindo apenas uma reeleição consecutiva.
O entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), consolidado na ADI 6524, reforça essa norma para garantir a alternância de poder. No entanto, mesmo diante desse contexto, Cidade conseguiu se reeleger pela terceira vez. Em outubro de 2024, o ministro do STF Cristiano Zanin suspendeu sua reeleição, mas, posteriormente, determinou uma nova votação.
Esse novo pleito foi realizado em um espaço de tempo extremamente curto — menos de dois dias — e durou apenas cerca de dois minutos, resultando novamente na vitória de Cidade.
Análise do Cenário Político
Para o jornalista e analista político da Rede Rios, Júlio Gadelha, Roberto Cidade se destaca como o favorito em uma possível disputa interna. Gadelha ressalta, entretanto, a questão dos mandatos consecutivos que o atual governador interino exerceu na Aleam. “Roberto Cidade é o favorito nessa eleição indireta, até porque já é uma figura consolidada entre os deputados da Assembleia. Ele foi um aliado fiel do governador Wilson Lima por muito tempo e conseguiu se manter na presidência por períodos consecutivos, algo que ultrapassa os dois mandatos permitidos pela legislação e que chegou a ser discutido no STF”, afirmou.
O analista também comentou que a experiência política acumulada por Cidade pode ser um fator decisivo para sua escolha, mas destacou os riscos que isso traz para a democracia. “Agora, por conta dessa lealdade, ele se posiciona como um candidato ao mandato tampão, com chances reais de buscar uma reeleição. Contudo, é importante refletir que a continuidade excessiva no poder é prejudicial ao sistema democrático”, disse.
Outro especialista, Afrânio Soares, afirmou que a possibilidade de Roberto Cidade se tornar governador do Amazonas é viável dentro do modelo de eleição indireta que prevalece na Assembleia Legislativa, o que requer a maioria dos votos dos parlamentares. “Ele estaria na condição de governador interino, baseado em um processo de eleição indireta, que depende apenas do apoio da maioria dos deputados. Como um excelente articulador, não vejo ninguém mais capacitado para angariar esse apoio na Aleam do que o próprio presidente”, avaliou.
Luiz Carlos Marques, outro analista político, também concordou que a ascensão de Roberto Cidade é “legalmente possível”, mas levantou preocupações sobre a concentração de poder. Ele observou que a questão a ser discutida deixa de ser ‘se pode’ e passa a ser ‘se deve’. “Há um ditado popular no Amazonas que diz que aqui ‘boi voa’. Essa realidade pode ser vista no atual cenário com o governador. Na posição que ocupa, ele é legalmente o governador interino e, por isso, deveria ser o futuro governador. Trata-se de uma situação legítima. A questão central deixa de ser se pode assumir e se torna se deve assumir”, comentou.
O debate sobre a situação política do Amazonas continua, levantando questões sobre os limites legais e institucionais relacionados à permanência de lideranças no comando da Assembleia Legislativa e suas implicações para a democracia.
