Desafios na Infraestrutura Brasileira
MANAUS – O projeto de reasfaltamento do trecho da BR-319 enfrenta sérios entraves, não por limitações técnicas ou questões ambientais, mas por uma ausência de base política, segundo especialistas entrevistados pelo ATUAL. O consenso entre eles revela que o Brasil opera sob uma ‘tecnocracia da desigualdade’, que prioriza investimentos em regiões já desenvolvidas, enquanto utiliza de forma seletiva os argumentos ambientais, aprisionando áreas como a Amazônia em um ciclo de abandono logístico e baixa integração econômica.
Embora haja divergências em outros aspectos, os analistas concordam que a infraestrutura no Brasil não é decidida com base em critérios técnicos ou econômicos, mas sim pela influência política de quem tem o poder de avançar ou bloquear projetos.
O professor Augusto César Barreto Rocha, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), é contundente ao afirmar que a política é o cerne de toda questão de infraestrutura. “Em qualquer lugar, a infraestrutura é um tema político. A questão econômica serve apenas como suporte para decisões políticas que visam garantir autoridade nas discussões. Isso ocorre em diversos países, mesmo os democráticos”, argumenta.
Um Legado Colonial
No contexto brasileiro, Barreto aponta que essa lógica se agrava devido a um histórico singular. “A trajetória política do Brasil é marcada por clientelismo e características regionais que influenciam o processo decisório na construção da infraestrutura”, explica. Ele associa esse fenômeno a uma herança colonial que, embora tenha mudado de forma, não foi superada. “As infraestruturas construídas muitas vezes atendem mais aos interesses de países estrangeiros do que às necessidades do Brasil”, critica.
Essa estrutura resulta em um sistema que concentra investimentos nas áreas mais ricas, perpetuando a desigualdade. “É uma situação ideal para as regiões desenvolvidas, mas que condena as mais pobres a um ciclo interminável de negligência”, ressalta o professor.
A definição do que ele chama de “tecnocracia da desigualdade” gerou debates públicos no Ministério dos Transportes e inspirou textos acadêmicos. “Esse termo representa como a estrutura técnica do Estado é moldada para favorecer os estados mais ricos, enquanto as regiões menos favorecidas são apenas fontes de arrecadação”, afirma.
Falta de Planejamento e Consequências Reais
A falta de planejamento surge como o pecado original desse problema, segundo o economista Wallace Meirelles Pinheiro. “Infelizmente, no Brasil, o planejamento é um aspecto frequentemente negligenciado. Sem ele, não há chances de viabilizar investimentos em infraestrutura”, diz.
A BR-319, conforme Wallace, foi construída sem um planejamento que incluísse as complexidades ambientais e fundiárias, resultando em impactos negativos, principalmente na região sul do Amazonas, com um aumento considerável na movimentação de pessoas. “Essa rodovia deveria ser vista como um corredor sustentável, equilibrando economia, meio ambiente e inclusão social, em vez de ser apenas uma obra de asfalto”, defende.
Ele também enfatiza o retorno econômico que a obra pode proporcionar, destacando que a BR-319 ajudaria a encurtar distâncias, aumentando a eficiência logística. “Embora seja uma estrada cara, seu impacto positivo é evidente, especialmente para o polo industrial da região”, argumenta.
Descaso e Desafios Logísticos
Wallace aponta que o descaso histórico no planejamento acarreta desafios práticos para a população. “O transporte aéreo é exorbitante, e é mais fácil viajar para fora do Amazonas do que para Parintins, por exemplo. O descaso com o planejamento resultou em situações absurdas”, critica. Em Guajará, um exemplo extremo é que o trajeto para chegar à cidade envolve uma combinação de viagens por terra e rio, totalizando mais de 3.100 quilômetros.
A ausência de iniciativas governamentais coerentes para a infraestrutura amazônica é outro ponto levantado por Wallace. “Qual é o plano do governo do estado para o Amazonas? Não conseguimos encontrar”, diz, ressaltando a fragmentação das ações regionais. Em relação à BR-319, ele destaca que, apesar de muitos falarem sobre o projeto, poucos realmente compreendem sua importância.
Meio Ambiente e Interesses Opostos
O impacto ambiental da construção da rodovia levanta questões complexas. Para Augusto César Rocha, o meio ambiente é frequentemente utilizado como um escudo para justificar a alocação de recursos nas regiões mais ricas. “O meio ambiente pode ser uma desculpa para não agir ou uma motivação para proteção”, explica.
O economista Luiz Antônio Pagot vai além, considerando as exigências de licenciamento ambiental como barreiras motivadas por interesses externos ao Brasil. “Os processos são frequentemente travados por ideologias que não levam em conta o desenvolvimento local”, critica.
Por outro lado, o economista Juarez Baldoino destaca a importância das regras ambientais como um contrapeso a interesses de curto prazo, embora reconheça que a BR-319 poderia estar liberada se não houvesse uma abordagem demagógica em torno de seu licenciamento.
Oportunidades de Desenvolvimento
Os especialistas concordam que a construção de ferrovias como alternativa ao transporte rodoviário na Amazônia é complexa, dada a geografia da região. Barreto considera a ideia de ferrovias mais como um imaginário do que uma solução prática. “As ferrovias são mais adequadas para produtos de baixo valor agregado, enquanto a produção amazônica é mais industrial e tecnológica”, afirma.
Em suma, o futuro da BR-319 e da infraestrutura na Amazônia depende de um planejamento coerente e da superação das barreiras políticas que ainda persistem. Com a integração de interesses econômicos e ambientais, é possível vislumbrar um caminho mais sustentável e inclusivo para a região.
