Investigações Revelam uma Organização Criminosa em Brasília
A investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) trouxe à tona a existência de uma suposta “organização criminosa” sob a liderança de Vorcaro, conforme afirmou o ministro André Mendonça, que atualmente é o relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Desde sua prisão em 4 de março, o ex-banqueiro está sob investigação por acusações que incluem corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e crimes contra o sistema financeiro. Recentemente, ele trocou de advogado, possivelmente para negociar um acordo de colaboração premiada. Outro envolvido, Fabiano Zettel, pastor e empresário, cunhado de Vorcaro, também se encontra detido e demonstrou disposição para delatar.
A quebra do sigilo dos celulares de Vorcaro, que está sendo analisada pela PF e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelou mensagens trocadas entre ele e sua ex-noiva, Martha Graeff. Nesses diálogos, Vorcaro menciona encontros com figuras políticas e autoridades. Em uma das mensagens, ele relata ter participado de uma reunião na residência oficial do Senado em 3 de agosto de 2025. Embora não mencione diretamente o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), descreve o encontro como algo que se estendeu até a meia-noite, indicando que uma nova reunião estaria programada para a próxima terça. Em outra mensagem, menciona um encontro no aeroporto com “Hugo”, o que pode se referir ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
O presidente da Câmara, Hugo Motta, se manifestou em nota, afirmando que sempre manteve uma agenda aberta para ouvir diferentes grupos, considerando essa uma das funções essenciais do cargo. Ele ressaltou ainda a importância de o momento exigir responsabilidade de todas as instituições e expressou confiança nas investigações conduzidas pelo STF, PF e Ministério Público.
Diálogos Reveladores e Relações Estranhas
Em um dos diálogos analisados, Vorcaro menciona o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrevendo-o como “um dos meus grandes amigos de vida”. Nogueira, que apresentou a polêmica “emenda Master”, que visava aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, defendeu-se dizendo que mantém diálogos por mensagens com diversas pessoas e que isso não o torna próximo de todos. Quanto à emenda, alegou que a cobertura do FGC não é atualizada há mais de uma década e que é necessário corrigir isso para proteger os correntistas.
Outra figura citada é Antonio Rueda, presidente do União Brasil. Em uma troca de mensagens, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, informa a Vorcaro que Rueda estava interessado em se encontrar com ele. A revista Piauí já havia revelado que o escritório de Rueda havia prestado serviços ao Banco Master, o que foi confirmado pelo próprio Rueda. Um e-mail recebido por Vorcaro indicou que um helicóptero alugado por ele foi utilizado para transportar Nogueira e Rueda a um evento de Fórmula 1 em São Paulo.
Reuniões no Executivo e Envolvimentos no STF
No âmbito do Executivo, também surgiu a revelação de uma reunião fora da agenda oficial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Vorcaro, que contou com a presença de outras autoridades, incluindo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Em entrevista ao UOL, Lula afirmou ter recebido Vorcaro a pedido do ex-ministro Guido Mantega, enfatizando que não haveria uma posição política favorável ou contrária ao Banco Master, mas sim uma investigação técnica a ser realizada pelo Banco Central.
Vorcaro também contratou serviços jurídicos do escritório de Ricardo Lewandowski, ex-ministro do STF, que confirmou prestar consultoria jurídica ao Banco Master após deixar o tribunal. Lewandowski destacou que, ao assumir o ministério em janeiro de 2024, afastou-se do escritório e suspendeu seu registro na OAB.
O caso ganhou contornos ainda mais complexos quando o STF se viu envolvido na crise. Em fevereiro, o ministro Dias Toffoli teve que se afastar do caso ao se declarar suspeito, uma medida que surgiu após a descoberta de que ele, junto com familiares, possui ações em uma empresa que fez transações relacionadas ao resort Tayayá, no Paraná, com Zettel.
Novas Revelações e Implicações Futuras
Toffoli minimizou a situação, inicialmente negando que sua relação com o negócio afetasse sua imparcialidade, mas após o afastamento, passou a afirmar que não tem ligação com Vorcaro. Recentemente, novas informações vieram à tona sobre o ministro Alexandre de Moraes, que, segundo reportagens, teria um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de sua esposa para defender o Master. Além disso, foi reportado que Moraes buscou interceder em favor do banco junto ao presidente do BC.
Os investigadores apontam que apenas uma fração do material apreendido foi analisada até o momento, e que as potenciais colaborações de Vorcaro e Zettel são apenas a ponta do iceberg dentro de um esquema muito mais amplo. As repercussões desse escândalo podem se estender a todas as esferas do governo, e a sociedade aguarda ansiosamente por esclarecimentos e desdobramentos. Todos os indivíduos mencionados nesta reportagem foram contatados, mas muitos não responderam.
