Decisão da Fifa Levanta Questões sobre Legado Esportivo
A recente divulgação da lista oficial de centros de treinamento (CT) para a Copa do Mundo feminina de 2027 coloca Manaus novamente no cenário das grandes competições internacionais. No entanto, essa escolha instiga debates sobre a verdadeira gestão do legado esportivo na Amazônia. A Arena da Amazônia foi confirmada como local de jogos, mas a Fifa e a CBF decidiram pela utilização do Instituto 3B, um centro de treinamento privado, em detrimento dos espaços públicos que foram fortemente investidos durante o mundial de 2014.
Estruturas como o estádio Ismael Benigno (Colina) e o estádio Carlos Zamith, que passaram por reformas e construções significativas para servir como campos de treinamento oficiais há uma década, foram ignoradas na decisão. Naquele momento, a justificativa para o uso de verbas públicas era a criação de um patrimônio duradouro que colocasse o Amazonas no mapa da infraestrutura esportiva de alto nível.
Essa escolha em favor de uma instituição privada, em vez de locais de treinamento públicos, contrasta com os discursos de sustentabilidade e aproveitamento de recursos que marcaram a candidatura brasileira para sediar o evento. O movimento revela a fragilidade na manutenção e na articulação política necessária para validar o uso desses espaços, que agora observam de longe um novo ciclo de investimentos direcionados para fora da esfera estatal.
Desafios na Manutenção do Legado de 2014
A decisão da Fifa e da CBF também reacende o debate sobre os custos de manutenção do legado deixado pela Copa de 2014. Se os centros de treinamento públicos não cumprem os requisitos para a Copa do Mundo feminina, apesar de terem atendido seleções masculinas de alto nível no passado, isso indica uma falha evidente na gestão ou uma mudança nos critérios que penaliza o contribuinte amazonense.
Embora o Instituto 3B seja reconhecido por seu trabalho no futebol feminino local, sua escolha representa uma solução que não dialoga com os investimentos estruturais realizados pelo Estado. Para especialistas em política e economia do Amazonas, esse episódio reforça a percepção de que o conceito de “legado” da Copa é volátil, sendo utilizado apenas para justificar gastos em grandes obras, mas facilmente descartado pelas entidades esportivas quando novas oportunidades de negócio no setor privado se apresentam.
Enquanto a Arena da Amazônia se prepara para receber os principais talentos do futebol mundial, os centros de treinamento públicos, que foram financiados com recursos que poderiam ter outras destinações na região, ficam à margem do espetáculo. Essa situação expõe uma contradição clara entre o brilho do evento e a realidade da gestão pública na Amazônia. Com a escolha da Fifa, os discursos sobre legado e infraestrutura esportiva se tornam ainda mais questionáveis.
