Manaus sob intensa pressão térmica
Manaus figura entre as dez cidades do mundo com maior exposição ao calor extremo, conforme revelou o estudo científico “Moving beyond exposure: a globally comparable framework for heat risk assessment in cities”, publicado em 2026 na revista Sustainable Cities and Society. A pesquisa avaliou 205 metrópoles com mais de um milhão de habitantes e apontou a capital do Amazonas na 9ª posição do indicador de Exposição ao Perigo (Hazard Exposure), com uma pontuação de 0,96 em uma escala de zero a um.
Essa colocação evidencia as condições físicas que submetem a população da cidade ao estresse térmico severo. Contudo, o levantamento não posiciona Manaus como o 9º local de maior risco geral, pois o método adotado diferencia o calor físico da vulnerabilidade social e da capacidade de enfrentamento do impacto.
Abordagem inovadora para medir riscos térmicos urbanos
O estudo propõe um modelo que avalia o risco térmico urbano considerando três dimensões: Exposição ao Perigo, que aborda as condições ambientais do calor; Vulnerabilidade, ligada às características socioeconômicas da população; e Falta de Capacidade de Enfrentamento, relacionada aos recursos disponíveis para mitigar os efeitos do calor.
Na dimensão da exposição, Manaus alcançou 0,96, garantindo a 9ª colocação entre as cidades analisadas. Para isso, foram usadas variáveis como o Universal Thermal Climate Index (UTCI), que considera temperatura do ar, umidade, velocidade do vento e radiação térmica, além dos Cooling Degree Days (CDD), que indicam o acúmulo de calor.
Quando os três componentes são combinados no Índice de Risco Composto, Manaus cai para a 26ª posição, com 0,66 de pontuação, ficando atrás de cidades onde o calor se soma a fatores sociais e estruturais mais críticos, aumentando o risco para a população.
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Regiões mais afetadas e a importância da infraestrutura
Mais de 95% das cidades em situação crítica de risco térmico estão localizadas no Sul Global, principalmente no Sul e Sudeste asiático e na África Subsaariana. Países como Índia, Paquistão, Nigéria e Gana concentram cidades onde o calor se agrava por condições socioeconômicas e estruturais desfavoráveis.
O estudo também destaca a relevância da infraestrutura para o enfrentamento do calor. Elementos como cobertura vegetal, acesso à energia e o uso de aparelhos de ar-condicionado podem diminuir a exposição imediata. Porém, a dependência excessiva do ar-condicionado é vista como uma possível mal-adaptação, já que eleva o consumo energético, aumenta emissões de gases de efeito estufa e libera calor residual, agravando o problema.
Estratégias passivas como arborização, sombra e ventilação natural são apontadas como soluções mais sustentáveis, capazes de reduzir a necessidade de refrigeração mecânica.
Dados recentes confirmam o aumento da pressão térmica em Manaus
Registros meteorológicos da estação A101 do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram que, em 6 de agosto de 2026, Manaus teve temperatura mínima de 27,5°C às 8h locais, indicando dificuldade da cidade para se resfriar durante a noite. Essa temperatura superou a média anual histórica de 27,4°C, reforçando a intensidade do calor.
Outro dado relevante mostrou 29,2°C com 66% de umidade relativa do ar em um período matutino, condições que dificultam a evaporação do suor e elevam o estresse térmico sobre o corpo humano. O ponto de orvalho, indicador da quantidade de vapor d’água no ar, também foi usado para avaliar essa situação, evidenciando a baixa eficiência desse mecanismo natural de resfriamento.
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Mapas de anomalias térmicas do INMET comparando os meses de maio a julho entre 2023 e 2026 revelam que áreas extensas da Amazônia e outras regiões do Brasil apresentaram temperaturas 2°C a 3°C acima da média histórica em julho de 2026.
Tendências de aquecimento e disparidades dentro da cidade
Um estudo da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) utilizando dados de 2001 a 2024 apontou uma tendência de aumento anual de 0,043°C na temperatura máxima e 0,044°C na média anual de Manaus, indicando um aquecimento gradual ao longo das últimas duas décadas.
Outro levantamento, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), identificou diferenças significativas de temperatura dentro da cidade. No bairro do Coroado, a diferença de até 6,5°C em horários iguais entre áreas urbanizadas e regiões com cobertura florestal, como a floresta da UFAM, mostra como a presença de vegetação e o tipo de ocupação impactam o microclima local.
Essas variações ressaltam que médias municipais podem mascarar disparidades importantes entre bairros, influenciadas por características como materiais de construção, infraestrutura urbana e cobertura verde.
Impactos na saúde pública e grupos vulneráveis
O estudo também relaciona os riscos térmicos às consequências para a saúde pública. Cita estimativas sobre uma onda de calor que atingiu cidades europeias em 2025, com 2.305 mortes em excesso em 12 cidades, 80% delas entre pessoas acima de 65 anos, evidenciando a vulnerabilidade dos grupos mais frágeis diante de eventos extremos.
